A CARREGAR

Quando Paulo Branco e o seu filho Juan nos pediram para escrever ou adaptar uma história, um de nós pensou em “O Orfão”, o conto breve de Kleist. A nossa paixão pelo texto era mútua: na escrita do autor alemão, encontrámos material muito rico e ecos de cinema.

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O nosso trabalho de reescrita levou-nos à criação de um fresco familiar que se desenrola ao longo de seis dias em Portugal, em 1554. A personagem central é Bela, um rapaz nascido num bairro pobre de Lisboa, adoptado por um casal franco-português rico, para substituir um filho perdido nas colónias.

Portugal em meados do século XVI vive o apogeu do seu poder e está simultaneamente à beira do declínio. Lisboa é o local de concentração de riquezas de todo o mundo. Mas a grande expansão estagnara. A Inquisição tornara-se uma instituição e, portanto, uma força política que constrangia a vida dos súbditos do reino. Converteu-se numa ferramenta moral, estendendo seu poder para além das preocupações religiosas, decretando o que eram boas e más condutas. As liberdades individuais iam sendo reduzidas, moldando um mundo cada vez mais estreito.



Amamos as histórias, amamos as almas errantes, os corações perturbados, amamos os céus tempestuosos, amamos o canto dos pássaros perdidos durante a noite, amamos a eternidade de uma praia perto do mar, a doçura de uma tarde sobre a erva, amamos os caminhos acidentados; amamos Branca que irá trair Rosa por amor, Rosa que irá sacrificar Bela pela sua liberdade, Maria que ama perdidamente um fantasma, Pierre que escreve poemas e os recita ao abrigo do mundo, Afonso que viveu várias vidas, Jacques que vive a dele em sonhos e fora do seu tempo, e, por fim, Bela, o nosso menino luz que vai sucumbir.

Marguerite de Hillerin e Félix Dutilloy-Liégeois